Beijamento
Entre corpos, territórios e futuros
Partindo do Algarve enquanto território historicamente marcado pela circulação de pessoas, mercadorias, culturas e saberes, esta residência convida jovens artistas a explorar o território algarvio e investigar as múltiplas camadas que moldaram e continuam a moldar esta região.
Situado entre o Atlântico e o Mediterrâneo, entre a Europa, África e o Médio Oriente, o Algarve constitui um espaço privilegiado, um ponto de contacto, para pensar questões de mobilidade, fronteira, pertença, tradução cultural e convivência.
"Beijamento" propõe uma reflexão sobre os espaços físicos, culturais, políticos e simbólicos onde diferentes comunidades, identidades, memórias e formas de vida se encontram, coexistem, entram em tensão e se transformam mutuamente. O conceito é aqui entendido como a definição do cruzamento de narrativas distintas e a marca onde memórias são preservadas ou apagadas, onde identidades são negociadas - um beijo como um espaço de conflito, resistência e adaptação. Como na geometria, onde o beijamento designa o ponto exacto em que corpos se tocam sem sedissolverem uns nos outros, esta residência propõe observar o limiar do toque que transforma sem apagar.
Num momento marcado por deslocações humanas sem precedentes, crises ambientais, desigualdades económicas, reconfigurações geopolíticas e persistências coloniais, a residência propõe uma reflexão sobre os modos como habitamos territórios atravessados por diferentes histórias e relações de poder.
No contexto algarvio, estas questões assumem particular relevância. A herança islâmica, as ligações históricas ao Norte de África, os processos coloniais e pós-coloniais portugueses, os movimentos migratórios contemporâneos, o turismo global, a pressão sobre os recursos naturais e a crescente diversidade cultural da região Algarvia fazem dela um laboratório privilegiado para pensar as complexas relações beijantes.
A residência procura acolher propostas que explorem criticamente estas interseções e tracem linhas de tensão, por proximidade ou afastamento, presentes no território e nas suas comunidades, explorando a própria duplicidade que o título encerra: a lógica exata da geometria e as liberdades da paixão.